Ano-Novo

Cada família tem a sua maneira de comemorar o final do ano. Faz parte da cultura, tradição, hábito e gosto. Sempre comemoramos mais o Ano-Novo que o Natal, já que meus pais eram budistas. Antes da festa, era preciso limpar a casa. A superstição diz que não se deve virar o ano com poeira velha em casa, que até hoje é limpa de cima a baixo, literalmente. Até hoje, no Japão, há o hábito de fazer essa faxina, tanto no trabalho quanto em casa.

Depois, era o preparo dos pratos. Havia sempre alguns pratos japoneses, embora o prato principal quase sempre fosse pernil. Makizushi e Inarizushi não faltavam, mesmo numa época em que era difícil comprar produtos japoneses. No Rio de Janeiro, na década de 70, só uma loja de produtos macrobióticos vendia alguma coisa. Quando ganhávamos um pacote de algas, por exemplo, era guardado com cuidado até o final do ano. Outro prato que minha mãe sempre fazia era o nishime – cozido de carnes, vegetais e alga kombu. Uma panela grande, com vários ítens, simbolizava – para nós – a fartura.

E nessa mistura de culturas, tinha lugar também para o bolinho de bacalhau e para a empadinha de camarão,  que traziam lembranças dos amigos do Rio. Passava o dia 31 inteiro na cozinha e ainda tinha um almoço especial no dia primeiro!

E, por gosto, exigência do meu pai, tinha sempre pudim de leite de sobremesa. Depois que cresci e passei a cozinhar mais, ainda tentei outras sobremesas, como sorvetes e bolos. Mas o pudim permanecia, com furinhos. Minha mãe deixava por minha conta, depois de certa idade, alegando que não sabia fazer pudim com os tais furinhos.

Sim, era um cardápio confuso. Mas, ao mesmo tempo, cheio de recordações.

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7 Comments

  1. Aqui em casa também era assim, cardápio ítalo-japonês com toques libaneses e portugueses. Fora que enquanto ditchan era vivo ainda tinha aquele peixe vermelho assado com o rabo para cima e sekihan, vcs. faziam também? Lembro que o peixe dava um trabalhão para assar e manter o tal do rabo para cima, mas mesmo assim minha mãe fazia questão de fazê-lo.
    E natal/ano novo sem pudim de leite furadinho não é natal/ano novo!
    Beijos e um feliz 2009!
    Yumi

  2. admin

    O sekihan aparecia em aniversários, aqui em casa. Agora, com a facilidade em encontrar arroz do tipo mochi-gome, é feito com maior frequência.
    Peixe, curiosamente, não aparecia em datas festivas em casa. Provavelmente porque minha mãe não é muito fã de frutos do mar. O peixe vermelho (tai) é servido em outras datas especiais no Japão, além do Ano-Novo: casamentos, aniversários. As espécies que comi por lá são muito, muito boas. Ficam ótimas só com sal. E para que o peixe entorte, costuma-se usar um espeto fino, parecido com uma agulha de tricô.
    E eu, na minha inexperiência, tentei fazer de festas familiares em uma experiência gastronômica. Que engano! Hoje vejo que tem muito mais a ver com hábitos, tradições, partilhar, agradar…
    Esqueci de comentar sobre o mochi, enorme, feito em casa, até hoje. Bom, hoje a família diminuiu e depois do dia primeiro, ele foi picado e congelado… 😀

  3. Marisa, adoro ler seus comentários, aprendo e recordo tanto… jamais ia lembrar que o nome do peixe era tai!!! Minha mãe tb. usava esse espeto, mas como não tínhamos a prática da minha tia sempre apanhávamos muito!
    E lembrei que aqui em casa sempre tinha mochi de kiku, que o pai de uma amiga fazia e nos mandava. Pena que todo esse povo que movimentava o lado nipo da família já tenha partido.
    Beijos, Yumi

  4. admin

    Puxa, que pena, Yumi.
    Eu tive a felicidade de conhecer uma parte da família que sequer sabia da existência (uma história longa). E desse encontro, voltei com duas receitas e muitas dicas…
    Por outro lado, a família diminuiu e, nessa geração, as relações estão bem mais elásticas que há duas, três décadas. As oportunidades de juntar muita gente à mesa quase que zeraram. Uma pena.

  5. A sorte é que apesar de não falar nada de japonês pude cutir muito meus avós. Foi bom enquanto durou, assim como dizem.
    Agora as festas são todas na casa da avó materna (a ítalo-judia casada com português) e esse ano pela primeira vez passei com amigos em Minas, então fomos de carne de porco do início ao fim. E tinha muita gente, mesa farta e barulhenta!
    Beijos

  6. Marisa Ono

    Falando em falar… Meu primeiro idioma foi o japonês, mas ele foi abolido em casa quando eu tinha uns 4 anos, por decisão de meu pai. Ele achou que eu estava tendo dificuldade em aprender o português.
    E eu esqueci quase tudo. Ganhei bolsa de estudo para aprender inglês e, lá pelos 12, 13 anos, pedi para meu pai me ensinar japonês. Ele retrucou: Pra quê? Não vai usar para nada, mesmo… Continua estudando inglês que rende mais.
    Resumindo, quando fui morar no Japão no início da década de 90, sabia muito pouco de japonês. Andava com um dicionário debaixo do braço. 😀
    Continuo sabendo muito pouco de japonês. Reconheço que também, estudo muito pouco e sem método, sem ritmo. O dicionário descansa na minha estante.

  7. Na minha casa tbém se festejava mais o Ano Novo, e ainda que a mesa fosse bem mais modesta (as mulheres em casa possuem pouca habilidade na cozinha), minha mãe procurava suprir essa ‘carência’ e preparava pratos especiais. Ela, sendo uma pessoa muito prática, aprendeu – no final dos anos 70 – a preparar ‘mochi’ de liquidificador’ com alguma vizinha. Ela deixava o arroz de molho por uma noite, e com a própria água, fazia rodar o liquidificador. A massa densa era despejada sobre um pano de algodão de trama fechada e então, era só cozinhar a vapor. O modo que mais gosto de comer o mochí é assado e comê-lo com uma pitada de shoyu levemente doce. Gostoso é vê-lo inchar até explodir, como um vulcão que jorra lavas, não é mesmo? Abraços.

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