Industrializados de Qualidade

Quem eventualmente me lê por aqui pode até pensar que sou contra produtos industrializados, já que faço muita coisa em casa: missô, diversos fermentados, embutidos, algumas carnes curadas, pães, biscoitos, geleias, conservas. Não é bem assim.

Em parte faço muitas conservas e fermentados por conta de um hábito, de longa data. Fazia doce de goiaba quando tinha uns 9, 10 anos de idade, apesar de odiar goiaba. Doce até como, a fruta não me inspira simpatia. Sempre tivemos uns potes de cebolinha no vinagre (rakkyo) ou gengibre (beni-shoga). Pepinos mergulhados no missô caseiro. Mas só com o advento da internet é que comecei a pesquisar porque as coisas não estragavam e como poderia conservar outros alimentos.

Trabalhei por 2 anos em uma indústria de alimentos. Vi algumas coisas não tão bonitas e que espero que não sejam regra nas fábricas. Mas também aprendi muito sobre administração, controle de estoque, de qualidade, normas de higiene e de segurança. Um dos grandes pontos a favor da indústria é a redução do desperdício. A organização para estoque, despacho, a logística como falam hoje, é impressionante. Tanto que comida – seja boa ou ruim – chega a quase todos os cantos do Brasil e do mundo.

Pois então, uso sim produtos industrializados. Aliás, é bem difícil de escapar deles.

E porquê estou tocando nesse assunto? Por conta de uma declaração do Jamie Oliver para o Paladar que saiu hoje:

“Aprendi nos últimos anos: industrializado não significa porcaria. Má qualidade é má qualidade. Ciência, linhas de produção, agrônomos, técnicos, isso pode significar muita qualidade. O mundo está em um novo momento. Nos últimos dez anos, entendemos a produção artesanal do passado e também as necessidades modernas, como tecnologia, produção em massa e supermercados. Estamos agora num momento de reequilíbrio. Sei por experiência própria que muitas grandes empresas têm capacidade de fazer a coisa certa. ”

Vejo esse movimento ganhar força no Japão. É que tenho mais contato com produtos japoneses que alemães, por exemplo. Já não é de hoje que as indústrias têm lançado produtos com menos sódio, sem açúcar, sem corantes por lá. E creiam, investem muito tanto na pesquisa do gosto em si quanto no desenvolvimento de produtos.

Um exemplo é o molho acima. Não é shoyu. Não leva esse nome porque shoyu é feito de soja, trigo e sal.

É um fermentado que tem por base soja, trigo e álcool. A quantidade de sódio presente é de 0, 3%. Quando fui apresentada a ele, fiquei intrigada. O sal tem, entre outras tantas propriedades, a de conservar, de evitar o desenvolvimento de organismos indesejáveis, assim como o vinagre e o álcool.

Apesar da aparência, não tem o mesmo sabor e aroma do shoyu. Na verdade, é um pouco amargo e o cheiro de álcool é bem presente. A maioria das pessoas irá torcer o nariz. No entanto, tem sido usado nas refeições em hospitais, sobretudo para pacientes que têm uma dieta com restrição de sódio. É borrifado com spray sobre o prato, só para dar um toque de algo próximo ao shoyu.

É só um exemplo. A mesma empresa produz um tamari de qualidade, com 4 anos de fermentação, dupla fermentação, coisa que a gente pensa que só existiria em um processo artesanal. É bem provável que no futuro teremos produtos com características artesanais, mas com padronização, distribuição e preços que a indústria consegue oferecer.

 

 

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4 Comments

  1. Diulza Angelica dos Santos

    uso alguns produtos tb. Marisa a cozinha tradicional Japonesa( Washoku),acho que que assim se escreve se errada me corrija, agora é patrimônio cultural imaterial da humanidade pela UNESCO> igual a Francesa.publicado dia 4 deste, e pelo que li os Nipônicos não deram muito bola não.

  2. Gilda

    Deus te ouça! Não que eu faça questão de usar industrializados, mas me revolta saber que a indústria muitas vezes pega um produto bom e estraga em alguma preparação medíocre e ainda leva os consumidores a pensarem que o gosto, a cor, a aparência, o aroma, são aqueles mesmo.

  3. Marisa Ono

    É, Diulza, fiquei sabendo, vi alguma coisa na NHK, mas parece que não ficaram muito surpresos. Creio que terá mais impacto fora do Japão mesmo.

  4. Marisa Ono

    Em parte, Gilda, a culpa da mediocridade de alguns produtos é do próprio consumidor. As carnes agora, aqui no Brasil, não são mais defumadas. Por conta de leis de controle ambiental e pelo receio dos supostos agentes cancerígenos na fumaça, não se pode mais defumar (pelo menos em larga escala). Os bacons são banhados em uma mistura de corante e fumaça líquida. E outros exemplos de produtos com muito sódio para conservar, já que o Brasil é um país tropical e nem sempre a transportadora ou o comerciante têm a seriedade de manter o produto bem refrigerado.

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