Omuraissu (Omurice)

Juro que pensei que havia publicado essa receita. Lembro de ter feito, mas não encontrei nem foto. Enfim, faço e publico agora.

Essa receita hoje é muito popular no Japão. As crianças adoram. A aparência, os ingredientes (leva ketchup) fazem pensar que é uma receita ocidental. Pois não é. O nome vem de omelette e rice e é uma porção de arroz envolta por uma omelete fina. Dizem que foi criada em 1902 no restaurante Renga-tei em Ginza. No filme Tampopo há uma cena com ele, numa versão um pouco mais elaborada.


Para cada porção, use 1 tigela de arroz (mais ou menos 200 gramas de arroz cozido) e 2 ovos.

60 gramas de frango (levemente temperado com sal e sake e cozido, cortado em cubinhos)

1/4 de cenoura picada em cubinhos, cozida

Um pouco de ervilhas cozidas (embora digam que a receita original não levava ervilhas e sim pimentão verde)

1/2 cebola pequena picada

Manteiga

1 colher de sopa de ketchup

2 colheres de molho de tomate peneirado

Refogue a cebola em um pouco de manteiga, até ficar transparente. Junte o arroz e refogue, para aquecer. Junte o frango, a cenoura e a ervilha, bem escorridos e misture. Tempere com molho de tomate e ketchup. Reserve.

Faça uma omelete fina com 2 ovos, 1 colher de chá de açúcar e uma pitada de sal. Os mais habilidosos colocam o arroz no centro da omelete e enrolam na frigideira mesmo. Se não tiver tanta segurança, tire a omelete da frigideira, coloque sobre um filme plástico, acomode o arroz e, com a ajuda do filme, enrole.

Sirva em um prato com um pouco de ketchup (há quem faça uns desenhos engraçadinhos nele, principalmente para a criançada) e coma com uma colher.

PS: Eu adicionei um pouco de presunto picado e usei soja verde (edamame) no lugar da ervilha, porque era o que eu tinha.

 

 

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Sea Food Rice

Quem assiste à NHK? Às nove da noite (daqui, no horário de verão) passa uma novelinha chamada Gochisosan. No começo, mostrava o pai da heroína tocando um restaurante francês. E da dificuldade em agradar a clientela japonesa. Muitos não sabiam usar garfo e faca. Muitos se queixavam da falta de arroz na refeição. O pão era fresco, mas não era isso que os clientes queriam. Ele insiste em fazer uma cozinha autêntica francesa mas, por fim, acaba se rendendo aos apelos da esposa e filha e passa a oferecer aos clientes a comida francesa adaptada que fazia para a família.

E foi mais ou menos assim que surgiu o “francês de hashi”. Muitos pratos foram adaptados e acabaram ganhando tanta popularidade e características próprias que hoje podem até ser chamados comida japonesa contemporânea. O beef stew lá é servido com… goham (arroz branco). O omuraisu (arroz com frango, ketchup, envolto em uma omelete fina) é outro exemplo.

Esse arroz é, de certa forma, um prato fusion, adaptado ou como queiram chamar. O fato é que, apesar do japonês comer muito arroz branco, purinho, também come de outras formas. É um pouco diferente do nosso “arroz de”, ou melhor, do português, que adotamos. Também é diferente do pilaf (embora até chamem por esse nome também). Também não é risoto.

Para fazer esse prato, usei camarão e mexilhões (poderia ter usado mariscos, lulas) congelados. Vamos ser realistas: camarão fresco, assim como tantos frutos do mar, não existem nas feiras o ano todo. Aliás, fresco mesmo, só se você for lá no porto e esperar o barco atracar. No geral, tem um ou dois dias. Descongelei em água com sal. Não sei explicar, mas a textura fica melhor.

Refoguei com manteiga e um pouco de sake (ou um vinho branco não muito seco). Temperei levemente com sal. Deixei cozinhar até que o camarão ganhasse uma cor rosada. Reservei. Reservei o caldo que se formou também.

Refoguei um pouco de cebola bem batida com manteiga e um fio de azeite, até ficar transparente. Juntei arroz lavado e escorrido. Usei arroz oriental, para ficar mais fiel ao que se come nas casas japonesas. Se preferir um arroz mais solto, use arroz agulhinha.

Adicione caldo (de cascas de camarão, de frango ou vegetais) ou água. Cozinhe por uns 3 minutos, adicione um punhado de vagens picadas e milho debulhado. Ou cenoura. Ou, se for outono, cogumelos. Entenderam, não? Use o que for da estação. E adicione cerca de 2 colheres de ketchup para uma porção para 4 pessoas. Porquê? Porque tem umami, vai dar cor, um toque adocicado, tem cravo e ouras especiarias, enfim, fica melhor.

Cozinhe por mais uns 7 minutos, abaixe o fogo e tampe. Quando quase todo a água estiver sido absorvida, adicione os frutos do mar e desligue o fogo. Deixe descansando por uns 10 minutos. Misture com um garfo, polvilhe pimenta-do-reino á gosto e sirva.

Ah, e coma com… uma colher. Sim, para nós é estranho, mas por lá é comum usarem a colher para comer arroz, risotos, pilafs, tcharan (yakimeshi).

 

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Yatsuhashi ou Otabe

Mais uma dos assuntos que acabaram surgindo no Facebook. Eu nunca comi yatsuhashi ou otabe (não sei se os nomes são diferentes por conta da região ou se yatsuhashi é o nome da massa e otabe é essa massa recheada; enfim, pesquiso outro dia). É um doce típico de Kyoto, mas nunca estive lá. Cheguei a ve-lo em lojas de presentes (creia, doce, no Japão é presente). Fiz, baseando-me na receita de um livro que tenho por aqui. Logo encontrei uma pequena dificuldade: esse doce é feito com farinha de arroz (geralmente koshihikari), chamada joushinko, que não tem por aqui. Tive que adaptar. Leva também farinha de arroz glutinoso chamado de shiratamako, próprio para fazer doces. Tem na Liberdade, é comum usa-lo para fazer os bolinhos que vão no senzai.

Geralmente na embalagem colocam uma imagem desses bolinhos, é a dica para comprar a farinha certa.

Resumindo, é uma massa de arroz que é um pouco elástica, quase como uma tapioca. Pode ser cortada em quadrados e recheada com doce de feijão ou cortada em tiras e comido assim mesmo, ou enrolado em um lindo morango ou até mesmo com sorvete. A quantidade de açúcar (enorme, aliás) evita que a massa endureça muito, mesmo gelada.

Comece deixando arroz tipo oriental, lavado, de molho por algumas horas. Ele vai ser fácil de morder e desmanchar com facilidade. Triture no liquidificador com água até que se forme um creme, esfregando esse creme entre os dedos quase não se sente os grânulos de arroz. Coe e esprema em um guardanapo limpo. Retire o máximo de água que conseguir.

Para cada 70 gramas dessa massa use:

30 gramas de shiratamako

120 gramas de açúcar

70 gramas de água

Misture tudo e passa por uma peneira, para ter certeza que não ficou nenhuma parte sólida sem se dissolver.

Cozinhe no vapor, sobre um guardanapo úmido, até que a massa fique sem gosto de arroz cru e ela vai ficar bem firme. Outra opção é cozinhar no microondas, funciona bem. Mexa eventualmente (o tempo entre cada mexida varia conforme a quantidade; para ter uma ideia, fiz com 250 gramas de massa de arroz e cozinhei por 6 minutos, cozinhei por mais 3 minutos, mexi e voltei a cozinhar por mais 3 minutos).

Despeje em uma superfície ligeiramente umedecida e amasse um pouco, para uniformizar a textura. Use luvas porque a massa quente é bem grudenta. Ou cubra a massa com um guardanapo fino e umedecido e sove por cima dele.

Abra em uma superfície polvilhada (no caso acima, usei matcha, chá verde especial em pó) ou kinako (farinha de soja torrada). Há versões com canela em pó, gergelim preto torrado e triturado e até mesmo chocolate em pó.

Abra bem fino e corte em quadrados ou tiras, ou conforme gostar.

Sirva com chá.

PS: as das fotos ainda ficaram um pouco grossas, deveriam ser bem finas mesmo, era para ser um pouco mais grossas que uma folha de papel. Bem fechado, aguenta pelo menos 2 dias sem estragar ou ressecar; o açúcar funciona como conservante.

 

 

 

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Yakimeshi (ou Tchahan) de Kimchee, Feito na Frigideira

Outro dia perguntei para minha mãe se ela já havia comido kimchee-tchahan. Ela disse que não. Achei até engraçado, ela é fã dessa conserva coreana. Fiz. E aproveito para explicar melhor como fazer um arroz frito solto mesmo com arroz oriental e sem o fogo intenso de um fogão industrial. E pode ser feito em uma frigideira (grande, de preferência com revestimento anti-aderente).

Para duas porções de arroz, usei 2 ovos pequenos. Misturei ao arroz quente, mesmo, até que cobrisse todos os grãos. Os ovos vão formar uma cobertura sobre os grãos. Depois de refogado, essa capa de ovo fará com que o tchahan (ou yakimeshi, como falamos por aqui) fique soltinho.

Levei ao fogo em uma frigideira aquecida, com um pouco de óleo. Tenha um pouco de paciência e evite mexer demais. Deixe dourar um pouco e vire com movimentos de baixo para cima, tombando o arroz. Pode ser feito com uma espátula ou as costas de uma colher de pau. Num fogão industrial há aquela agitação toda porque a temperatura sobe muito rápido e pode queimar. Já no fogão doméstico, demora muito mais tempo para dourar e se ficar misturando demais, os grãos de arroz irão se quebrar e mudar a textura.

Depois que o arroz estiver bem aquecido, soltinho e o ovo que cobre os grãos cozido, juntei umas 2 colheres de kimchee picado, um pouco de carne assada picada, cebolinha, 1 colher de shoyu, sal. Quando tudo ficou bem quente, juntei um bom punhado de alface romana (poderia ser americana) picada grosseiramente. Servi imediatamente, para que a alface não murchasse demais e perdesse a textura.

Ah, não gosta de kimchee? Faça com o que gostar. Se for usar vegetais refogados (como cenoura em tirinhas) ou carnes cruas (porco, frango, camarão), refogue antes, tempere à gosto e deixe à parte. Junte ao arroz depois dele bem refogado. Eu faço questão da cebolinha, que dá um aroma bom ao prato.

Vai para a categoria “Cozinha do Desespero” por ser prato único, fica pronto em minutos, pode ser feito com o que tiver na geladeira e satisfaz.

PS: Aqui está o video de como fazer um arroz frito soltinho, mesmo em uma frigideira comum. No caso, fiz com alface e vegetais.

 

 

 

 

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Gomoku Timaki (Arroz Cozido Em Folha de Bambu)

Há muito estou ensaiando para fazer esses pacotinhos de arroz. Existem muitas versões desse prato, variando desde os ingredientes até a maneira de fazer e embrulhar. É muito parecido com outro prato chinês, chamado de Zongzi. Na Liberdade já ouvi chamarem de “pamonha chinesa”. Dá um pouco de trabalho, sim.

360 gramas de arroz glutinoso (mochigome)

150 gramas de carne de porco

1/3 de cenoura

2 cogumelos shiitake secos ou o equivalente em shiitake fatiado seco

4 a 5 vagens

1/3 xícara de broto de bambu cozido e picado

1 colher de chá de suco de gengibre (rale e esprema o gengibre)

Cebolinha verde picada (opcional)

Shoyu e sake

Folhas de bambu

Lave e deixe o arroz de molho em bastante água por pelo menos 2 horas. Escorra em uma peneira. Deixe o cogumelo shiitake de molho para hidratar.

Enquanto isso, pique o porco em cubos com cerca de 1 cm de lado. Tempere com um pouco de sake e shoyu.

Pique a cenoura em cubinhos com menos de 1/2 centímetro, assim como o broto de bambu e a vagem. Escorra e pique o cogumelo em cubos menores ainda. Não jogue a água na qual o cogumelo ficou hidratando.

Escorra o porco e refogue em um pouco de óleo. Adicione a cenoura, vagem, broto de bambu e cogumelo e refogue mais um pouco. Adicione o arroz e misture delicadamente. Cuidado porque os grãos estarão mais quebradiços depois da hidratação. Meça a água dos cogumelos e adicione mais água até completar 220 ml. Adicione ao arroz. Tempere com 2 colheres de sake, 1 colher de shoyu e sal. Por fim, adicione o gengibre.

Cozinhe em fogo alto até quase secar toda água. Desligue o fogo. Adicione a cebolinha, se gostar.

Forme um cone com a ponta da folha de bambu hidratada. Eu preferi deixar a parte mais lisa para dentro, não sei se existe uma regra.

Encha o cone com arroz. Dobre como aparece na foto, centralizando.

Dobre as laterais para o centro.

Dobre novamente. Se necessário, corte o excesso. Eu não cortei nada, continuei dobrando o quanto pude.

Amarre com um fio de palha ou barbante.

Cozinhe no vapor por 30 minutos. As folhas vão ganhar uma cor mais viva e o arroz irá ficar bem macio e perfumado. Pode ser comido quente ou frio.

Agora, as variações. Os ingredientes do “recheio” podem variar, claro, conforme as opções da estação. Pode ser até mesmo totalmente vegetariano.

Essa não é a única maneira de se embrulhar o arroz. Há quem coloque uma porção grande de arroz no centro da folha e dobre as duas pontas para o centro, formando um pacote retangular.

Na falta de folha de bambu, há quem use papel alumínio. Não testei.

E então, porquê ter esse trabalho todo para cozinhar um arroz misturado? Tem a ver com a cultura dos embrulhos japoneses e a apresentação mais caprichada para os dias de festa. A folha de bambu também confere um aroma distinto. E o prato torna-se portátil, bom para levar em um piquenique.

 

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Hom Sui Gok

Me falaram de um lugar que faz um “pastel de mochi”. Claro que fiquei curiosa. Mas ainda não fui conferir. Na verdade, nem tenho certeza de onde seja, tirando o fato que é no bairro da Liberdade. Há uns dias li um artigo sobre dim-sums, petiscos que acompanham chá e uma coisa foi levando à outra. Na verdade, não é um pastel de mochi e sim um bolinho feito com farinha de arroz para mochi.

Não fiquei totalmente satisfeita com essa receita e vi que existem muitas variações. É que eu gostaria que ficasse mais crocante por fora e tivesse uma cor mais uniforme. Isso vou ter que aprimorar. Enquanto bem quente tem uma casca durinha por fora e macia, pegajosa no interior, lembrando o mochi. O recheio é o mesmo que usei no post anterior. Mas se quiserem tentar, aqui vai a receita:

1 xícara de farinha de arroz para mochi (ou arroz glutinoso)

1/3 xícara de polvilho doce

Água fervente

2 colheres de sopa de açúcar

Sal à gosto

Misture a  farinha de arroz ,  polvilho., sal e açúcar Adicione água fervente e misture, adicionando água quente até obter uma massa macia. Vai mais que meia xícara e menos que uma, para ter uma idéia. Amasse um pouco para uniformizar e formar uma massa lisa.

Divida a massa em dez porções. Abra com a mão e recheie, dando o formato de um kibe ou uma bola de futebol americano. Não faça muitos de cada vez, vá fritando conforme modela 3 ou 4 unidades.

Frite em bastante óleo e em temperatura moderada. Cuidado, porque se a temperatura for alta demais ou fritar por tempo demais, os bolinhos podem rachar e explodir. Retire quando estiverem dourados. Escorra em papel toalha.

Depois de frios são comíveis, mas perdem a textura mais durinha da parte exterior.

 

 

 

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Tapioca Enrolada de Arroz

Eu gostaria de dizer que isso é Cheong Fun, massa de arroz cozida no vapor e enrolada. Mas não posso. Primeiro porque não é cozida no vapor e sim em uma frigideira retangular que uso para fazer tamagoyaki. Pensei no fato em que muita gente não tem uma panela para cozimento no vapor. Em segundo, porque muitas receitas recomendam o uso de amido de trigo, arroz glutinoso, coisas que já sei que muitos leitores não vão encontrar no supermercado.

Isso é uma adaptação. Ou seria uma reinterpretação? Enfim, para quem quiser provar o cheong fun, vai precisar ir à Liberdade. Esse dá para fazer em casa, com uma frigideira de fundo grosso. O recheio pode variar. Usei um resto de porco assado, mas poderia ter usado camarão seco re-hidratado e picado. Ou nada, servindo com um molho saboroso, amendoim picado.

150 gramas de arroz cru

450 ml de água

50 gramas de polvilho doce

40 gramas de amido de milho

1/2 colher (de sopa) de sal

Óleo para untar

Cebolinha picada

Porco assado picado ou camarão seco, hidratado, picado. Ou frango. Ou nada, nem cebolinha

Lave o arroz e deixe de molho em água fria por 4 horas. Escorra em uma peneira.

Coloque o arroz e a água em um liquidificador. Triture até que o líquido fique liso. Sinta-o entre os dedos, não haverá grumos. Adicione o polvilho, o amido e o sal e bata mais um pouco.

Unte uma frigideira com fundo grosso e leve ao fogo baixo. No caso, eu usei uma frigideira retangular, própria para tamagoyaki. Ela tem as paredes bem grossas e o formato proporciona rolinhos uniformes. Aproveite e unte também uma assadeira ou pratos que irá usar para acomodar os rolinhos já prontos. Enquanto quentes, são muito grudentos. Eu preferi misturar cebolinhas à massa, mas não é obrigatório. Ela pode ser polvilhada sobre a massa, já na frigideira.

Antes de despejar um pouco da massa na frigideira, misture bem. É que o amido tende a assentar no fundo. Espalhe a massa de maneira que fique uma camada uniforme. Cozinhe até que ela fique transparente e comece a soltar dos lados. Se for usar algum recheio, salpique sobre ela antes que endureça. Enrole com a ajuda de uma espátula.

Esses rolinhos são macios, um tanto quanto pegajosos. Caso prefira, aumente a quantidade de amido de milho e polvilho, para uma consistência mais firme.

Eu prefiro comer só com shoyu, mas é possível  preparar algum molho, picante ou não e servi-lo polvilhado com amendoim triturado ou gergelim torrado. Fica a seu critério. E eu gostei delas mesmo frias.

E, por fim, uma pequena curiosidade. Resolvi tentar fazer esses rolinhos na frigideira porque meu fogão está fora de prumo. Quando tentei pela primeira vez, na panela de vapor, a massa ficou muito mais grossa de um lado e fina demais do outro. Entre procurar calço para o fogão para nivela-lo, acabei procurando uma outra forma de cozimento.

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Sakura Mochi

Eu estava ensaiando escrever sobre folhas de cerejeira já há algum tempo. Tudo porque a cerejeira daqui de casa soltou bastante folha nova e como nesta época do ano a incidência do sol é menor, elas estão mais macias. Essas folhas podem ser conservadas bom muito tempo em salmoura.

Confesso que não sei grande coisa sobre espécies de cerejeiras. Só sei que a que temos não dá cerejas e tem essas folhas largas, grandes. Temos uma outra, de folhas menores que dizem que são chamadas de “Okinawa Sakura”. Para saber como preserva-las, recorri ao chef Shinya Koike do Aizome. Ele disse para eu ferve-las até ficarem macias e depois passar por água gelada, escorrer bem, salgar e cobrir com salmoura forte. Fiz um pouco mais. Separei as folhas por tamanho e fiz maços de 10 folhas e fui empilhando em um pote. O aroma era mais intenso há duas semanas. Acho que o melhor mesmo é embala-las à vácuo depois de uns dias de salga.

E essas folhas são usadas em doces e salgados lá no Japão. E ultimamente estão usando também em doces ocidentais, como biscoitos, bolos e pães. Vou experimentar outras coisas com essas folhas, aproveitando a safra. Por enquanto fico em duas receitas bem tradicionais. O nome sakura mochi se refere a dois doces diferentes, um mais comum na região leste e outro, na região mais a oeste. Tive que fazer uma adaptação, já que não encontro por aqui o doumioji-ko. Trata-se de arroz glutinoso (mochigome) hidratado, cozido no vapor, seco e quebrado em pedacinhos. Parti do arroz glutinoso e o resultado foi bom.

Sakura-mochi Kansai-fu (à moda de Kansai)

280 gramas de arroz glutinoso (mochigome)

360 ml de água

3 colheres (de sopa) de açúcar

Corante alimentício vermelho – eu usei o em pó, japonês, diluído em um pouco de água

Anko

Folhas de cerejeira salgadas, lavadas e bem secas entre toalhas de papel

Lave e deixe o arroz de molho por algumas horas. Escorra bem em uma peneira. Coloque metade no processador de alimentos e utilizando a função “pulsar”, quebre um pouco os grãos. Não é para transformar em pó e sim, em pedacinhos regulares. Fiz o mesmo com a outra metade.

Cozinhei o arroz na panela elétrica com 340 ml de água. Assim que ficou pronto, virei em uma tigela, adicionei o açúcar e amassei levemente com o surigoshi (o pistilo do almofariz, o pau do pilão japonês). Se não tiver nada semelhante, use as costas de uma concha, também funciona. Não é preciso triturar com paixão, é só para misturar o açúcar e desenvolver um pouco mais de “liga”.

Adicionei gotas de corante. Com as mãos molhadas misturei para distribuir o corante. Ainda com as mãos molhas, dividi a massa em 15 porções. Também fiz 15 bolinhas bem menores, da pasta doce de feijão azuki (anko, usei koshi-an)

Depois é só rechear a massa de arroz com a bolinha de anko, dar um formato oval e enrolar em uma folha de cerejeira salgada.

Sakura-mochi Kanto-fu (à moda de Kanto)

6 gramas de farinha de arroz glutinoso

20 gramas de açúcar

60 gramas de farinha

100 a 120 ml de água

Corante alimentício vermelho (usei o em pó, japonês, diluído em um pouco de água)

Anko

Folhas de cerejeira salgada (eu prefiro lavar para retirar o excesso de sal) e bem enxutas entre folhas de papel-toalha

Misture a farinha de arroz glutinoso, o açúcar e a farinha de trigo. Adicione a água aos poucos. Passe por uma peneira e deixe descansar por pelo menos 15 minutos.

Aqueça uma frigideira com revestimento anti-aderente e passe um pouco de óleo com um pincel ou papel toalha. Despeje cerca de 2 colheres de sopa da mistura e espalhe com as costas de uma concha pequena, formando uma panqueca fina. Talvez seja necessário acrescentar um pouco mais de água para que a massa fique mais fluida. Também é possível que você estrague uma ou duas até encontrar a temperatura correta.

Não deixe cozinhando demais. Trabalhe sempre com fogo baixo e, caso esquente demais, retire do fogo. Vire e termine de cozinhar do outro lado, isso leva apenas alguns segundos. O resultado será um disco liso, sem dourar.

Recheie com anko, deixando a parte mais lisa para fora. Pode ser enrolado como uma panqueca ou ter as laterais dobradas como um pacote. Envolva com uma folha de cerejeira salgada.

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Zenzai

Este é um doce que está ligado à minha infância. Ao contrário de bolos, biscoitos, chocolates, esse eu só poderia comer em casa, porque aqui no Brasil são poucos lugares que preparam, se preparam. Trata-se de uma sopa doce de feijão azuki com bolinhas de massa de arroz. É servida quente, geralmente entre as refeições (os japoneses não têm o hábito de servir sobremesas). Pode soar estranho para nós, brasileiros. Feijão doce já não é algo que nos atraia. Sopa doce também não, embora gostemos de canjica.

Para fazer é fácil. Basta deixar de molho feijão azuki por 6 horas ou mais e cozinhar até ficar macio mas sem desmanchar por completo. Adiciona-se açúcar – geralmente é bem doce, eu ando diminuindo o açúcar em geral –  cozinhar até o açúcar dissolver-se por completo e formar um caldo grosso e adicionar as bolinhas de massa de arroz mochi.

Para as bolinhas (shiratama dango), deixei de molho arroz para mochi (mochigome) por uma noite. Triturei no liquidificador com água até que eu não sentisse grânulos nessa mistura. Coei em um saco de pano e obtive uma massa branca, lisa. Ela é modelada em discos pequenos e cozida em água fervente. Gostamos de adicionar sal à massa, para dar um contraste ao doce. Quando as massinhas estiverem cozidas, sem gosto de arroz cru, é só retirar da panela e jogar em água gelada. Essa massinha tem gosto e textura parecida com o mochi. E falando em mochi, ao invés dessas bolinhas, pode-se servir com um pedaço de mochi assado também.

PS: Antigamente era muito difícil achar arroz para mochi. Costumava ser raro e caro. Como substituto usava-se uma massa de farinha de trigo. Misturava-se água quente à farinha, modelava-se bolinhas e cozinhava-se em água fervente, como nhoque. Ainda hoje há quem faça assim.

 

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Sementes, Grãos…

Hasu no Mi

Para quem viu o caderno Paladar do Estadão, o assunto da capa eram sobre grãos e sementes, excluindo os nossos velhos conhecidos, como o arroz, o feijão, milho, trigo. Para quem não viu, o link para a matéria é este:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%20paladar,germina-uma-tendencia,4945,0.htm

Para quem me conhece bem, sabe que sou muito distraída para reparar em tendências, modas. Vou a mercearias, feiras, vejo o que conheço e o que não conheço, pergunto, pesquiso. Fiz 3 receitas, a Olívia Fraga e o Felipe Rau vieram, foi tudo muito rápido. Lamento que a Neide Rigo esteja viajando, ela contribuiria com coisas bem interessantes, curiosa como ela é.  Ela tem feito pratos com milhete, sementes de alfavaca, enfim, muita coisa, confiram.

Hasu no mi

Com a semente de lótus (hasu no mi) secas, fiz um arroz com cogumelos, frango e cenoura. Um prato simples e que cai bem nesse clima que ainda não é tão outonal. A semente de lótus tem muito amido e um sabor que lembra um pouco uma castanha, amêndoa. Na China usam em sopas e até em doces em pasta.

Fiz o arroz assim:

280 gramas de arroz tipo oriental
30 gramas de sementes de lótus
1 buquê de cogumelos ostra (mais ou menos 60 gramas)
100 gramas de peito de frango picado
1/3 de cenoura média, picada
2 colheres de sopa de shoyu
1 colher de sopa de sake
Sal
Hidratei as sementes de lótus por 3 horas, aferventei e lavei para retirar a película.
Lavei o arroz e coloquei na panela elétrica para cozinhar arroz. Coloquei água na medida indicada pelo fabricante, menos 3 colheres de sopa. Adicionei todos os ingredientes, liguei e esperei. Misturei depois de cozido.
A foto e comentários estão aqui:

Eu tive um pouco de receio em usar a chia. É que andam dizendo que ela emagrece e eu não quero estimular esse tipo de visão, de consumo. O que me atraiu nessa semente é que ela se expande e vira um gel. Foi o ponto para fazer um molho de salada que não escorre.  No caso, um rolinho com mignon de wagyu chamuscado só por fora, com um maçarico. A receita está publicada aqui:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%20paladar,tataki-de-file-mignon-com-molho-de-chia,4947,0.htm

Por fim, as sementinhas de shisô em conserva, que viram um furikake fresco. Talvez ainda encontrem nas feiras as sementes, vendem os maços da planta com os pendões (qual seria o termo correto?) com dezenas de sementes. É só destaca-las e salgar.

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%20paladar,arroz-com-conserva-de-oba,4948,0.htm

Bem, resumindo, usei sementes que estão por aí, faz tempo. Não inventei nada, não criei nada novo. Mas fico contente em saber que aumenta o interesse por outros grãos. Agora temos uma produção de raiz de lótus mas não vejo as sementes. Queria fazer dango (uma massinha parecida com o mochi) com milhete, mas não encontrei para comprar. Se é uma tendência, não sei, mas abre-se o leque de opções de sabores, cores, texturas. É, gosto da diversidade.

 

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