Pão Nosso

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Tem gente que gosta de fazer pão. Eu, por exemplo. A Neide Rigo. A Nina Mori. E o Luiz Américo Camargo.

Porquê?

O prazer de amassar, dar forma, ver crescer talvez justifique. O aroma de pão assando, a crosta crocante do pão quente, o sabor dele fresco também. Mas isso pode ser conseguido com um fermento industrializado.

Fermento natural. Porquê?

Para uns, pelo sabor diferente. Pela textura mais firme. Pelo aroma cheio de personalidade. Mas também o fracasso está no caminho. Nem sempre o fermento funciona, o cheiro fica estranho, trabalho jogado fora. Frustração.

Então porquê?

Não sei quanto aos outros, só posso dizer sobre mim. Porque eu preciso saber. Eu preciso saber os passos para fazer surgir um fermento. Que cheiro tem um fermento bom ou ruim. Quanto tempo leva para um pão crescer. Mais um pouco? Demais ele desaba. Que farinha? Mais água num dia seco? Quanto? E também o prazer de fazer algo com as minhas próprias mãos, do zero. Para quem já me acompanha sabe gosto de pesquisar e fazer coisas que muitos deixaram de fazer em casa, como misos, shoyu, vinagres.

Perdi a conta dos fermentos que criei, que perdi, que matei. Mas sabe? Não lamento. Tenho dois que gosto e estão bem vivos. E o próximo vai ser melhor.

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Estou aprendendo a lidar com outro fermento, o que o Luiz Américo ensina. Está meio desanimado porque tirei da geladeira para a foto. O livro, quase comprei. Numa livraria disseram-me que não havia em estoque e sugeriram que eu comprasse através do site. Acabei ganhando e com dedicatória.

Para quem também quer saber os comos e porquês da fermentação natural, o livro é ótimo. E também pelo fato de ser bem escrito, a leitura é gostosa.

 

 

 

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Milk Pan

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No post de ontem apresentei a receita de um pão de forma de leite à japonesa. Mas quando recebi o e-mail e li o artigo sobre ele, senti que havia alguma coisa errada. Depois, conferindo em uns livros que tenho por aqui, entendi o que era. É que o pão de leite japonês que eu conheço é um pão moldado, bem dourado, que recebe um pouco de manteiga em toda superfície assim que sai do forno, para que a casca seja brilhante e macia. O pão tem uma textura bem diferente do pão de leite daqui. É macio, mas firme e úmido. Bom para o café da manhã (aguenta uns 2 dias, pode ser congelado) com manteiga ou até mesmo para acompanhar uma refeição, apesar de ser adocicado. O leite em pó confere um aroma de leite e ajuda a manter a massa macia por mais tempo.

400 gramas de farinha de trigo

40 gramas de açúcar

40 gramas de leite em pó

50 gramas de creme de leite

6 gramas de sal

6 gramas de fermento biológico instantâneo seco

Leite o quanto baste

30 gramas de manteiga e mais manteiga para pincelar a superfície

1 gema, para pincelar

Misture a farinha, o açúcar, o leite em pó, o sal e o fermento. Acrescente o creme de leite e leite, misturando até formar uma massa macia. Unte a tábua com manteiga e sove por uns 10 minutos. A massa é um pouco pegajosa e bem elástica.

Forme uma bola, coloque em uma tigela, cubra com filme plástico e deixe crescer até dobrar de volume.

Depois desse tempo, abra a massa com um rolo e dobre em 3. Repita a operação algumas vezes, para retirar as bolhas de ar maiores.

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Dê o formato cilíndrico e deixe crescer até dobrar de volume.

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Pincele com gema e faça 5 cortes profundos ao longo do pão.  Leve ao forno quente pré-aquecido por 10 minutos. Abaixe um pouco a temperatura e asse até dourar. Assim que retirar do forno, pincele com manteiga toda a superfície. Deixe esfriar antes de servir.

 

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Milk Shoku Pan

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Um amigo passou um link de um artigo estrangeiro, falando do pão de forma com leite japonês. Parece que os pães japoneses estão agradando pessoas de outros países. No caso dos pães de forma, entendo completamente. São pães macios e úmidos, mas que não esfarelam, são ótimos para sanduíches ou para serem tostados ligeiramente e comidos no café da manhã com um pouco de manteiga.

Bem, a receita que testei não ficou tão boa e tentei fazer à meu modo. O resultado foi bom, apesar de ter sido sovada na batedeira. Certamente ficaria melhor numa máquina de pão. Funcionou com farinha comum, dessas que a gente encontra no supermercado, mesmo. É preciso ter uma forma para pão de forma, com tampa. O pão é macio, com aroma de leite e manteiga.

500 gramas de farinha de trigo

30 gramas de leite em pó

30 gramas de açúcar (se bem que eu achei que ficou um pouco doce, poderia tentar com apenas 20 gramas)

6 gramas de sal

8 gramas de fermento biológico seco instantâneo

Leite

60 gramas de manteiga, mais para untar a forma

Misture a farinha com o leite em pó, açúcar, fermento e sal. Vá adicionando leite até formar uma massa macia. Se for usar a batedeira com o gancho para as massas pesadas, trabalhe a massa por uns 10 minutos antes de adicionar a manteiga. A massa será um tanto pegajosa.

Se for sovar a massa à mão, misture todos os ingredientes menos a manteiga. Unte a tábua com manteiga e sove. A manteiga irá impedir que a massa grude na tábua. Sove a massa por uns 10 minutos.

Deixe crescer até dobrar de volume.

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Coloque a massa em uma tábua enfarinhada e abra com um rolo. Dobre em 3 e torne a abrir e dobrar por algumas vezes. É para tirar todas as bolhas grandes de dentro da massa. Enrole o pão e coloque em uma forma para pão de forma untada com manteiga. Deixe crescer até quase atingir a borda da forma. Coloque a tampa e leve ao forno pré-aquecido até dourar bem.

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Retire da forma e deixe esfriar antes de cortar. É que esse pão é muito macio e pode amassar se cortado ainda quente.

PS: Quando topei com o artigo sobre o Milk Shoku Pan alguma coisa me incomodou na hora. Depois lembrei o que era. Outro dia conto essa história.

 

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Hidromel e Fermento de Mel

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Michael Pollan em Cozinhar comenta sobre a experiência de fazer hidromel com micro-organismos selvagens. Apelou para um figo feio que tinha em casa e deixou fermentando. Eu poderia ter apelado para fermentos domesticados, tenho alguns aqui, liofilizados, um é até utilizado na produção de sake. Mas resolvi usar uva passa e deixar a contaminação acontecer.

Aliás, vale lembrar que em um ambiente completamente limpo não vai acontecer nada ou pouca coisa. Para fazer hidromel não lavei as passas. Não usei água clorada. Fermentação, sob certo aspecto, envolve alguma “sujeira”, seja vindo o ar, da farinha, de alguma fruta passada.

E me perguntam: É seguro? Costumo descartar tudo que tenha um cheiro muito estranho, como esgoto ou acetona e tudo que tem o gosto muito ruim. No mais, estou vivendo. Li em algum lugar uma história sobre uma senhora que fazia carnes curadas em casa. Antes de comer, oferecia para o cachorro. Se ele recusasse ou passasse mal, ela descartava.

No caso do hidromel, creio que é sim, seguro fazer em casa. O gosto é bom, o cheiro também e, afinal, é uma das bebidas mais antigas da humanidade.

Na verdade é bem simples. Para cada xícara de mel, adicionei 4 xícaras de água fervida, já fria e algumas passas (sem lavar). Coloquei em uma garrafa PET limpa e tampei. Quando começaram a surgir bolhas, afrouxava um pouco a tampa para que escapasse um pouco de gás – só um pouco, não todo, a intenção é não deixar o ar entrar – e deixei por dias.

Na primeira experiência, deixei fermentar por uma semana. A bebida tem um pouco de álcool e um pouco de gás, mas ficou muito doce.

Na segunda vez, deixei fermentar por duas semanas. Ficou menos doce, com mais álcool (pena que não tenho como medir o teor alcoólico) e um pouco de gás. É uma bebida agradável sim, mas o sabor vai depender muito do mel utilizado. E é possível adicionar ervas e especiarias, mas aí já muda o nome, é chamado de  Metheglin.

Agora estou deixando fermentar para ver até onde o fermento selvagem vai trabalhar. Na pior das hipóteses, acabarei com um vinagre de mel. Dizem que dificilmente passará dos 5% de álcool, ou seja, nunca será uma bebida forte.

Peguei um pouco desse hidromel e testei em um pão. Sim, se faz bolhas, se produz gás, deve de servir para fermentar pão. O mesmo faria se tivesse cerveja não-pasteurizada.

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Simplesmente misturei hidromel com farinha e deixei fermentando em um canto da cozinha. Depois de 12 horas a fermentação era bem evidente.

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As bolhas formadas eram bem pequenas. Alguns fermentos que eu tenho produzem bolhas bem maiores.

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Depois de fermentada essa “isca”, medi 200 gramas dela e misturei a 300 gramas de farinha, 7 gramas de sal e água o suficiente para formar uma massa macia. Untei uma tábua com bastante azeite (cerca de 1/4 de xícara) e sovei por uns 10 minutos. Depois deixei descansando, até dobrar de volume. O dia estava quente, só levou umas 5 horas.

Enrolei em um cilindro longo e fiz duas bisnagas (carioca não fala bengala, a minha infância desconhecia a baguette) e deixei crescer em um ambiente úmido (deixei uma tigela de água quente dentro do forno) para que o pão não resseque demais. Fiz cortes e assei.

O pão me lembrou alguma coisa que comi na infância, no Rio, numa época em que as padarias de lá eram, na grande maioria, de portugueses. O miolo era macio mas consistente, a casca fina e crocante. Poderia ter obtido uma côdea mais grossa, bastava assar por mais tempo, até ficar bem mais escuro. Sim, não ficou muito diferente do pão frances. Mas um pão francês do tempo em que as padarias faziam a própria massa e não compravam de uma indústria que os vende enrolados e congelados. Não tem a complexidade de alguns fermentos naturais, que conferem ao pão um sabor levemente ácido. Mas gostei do resultado. No dia seguinte continuou bom.

 

 

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Pão Recheado Feito Na Chapa

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Eu gosto muito de pão. Pão simples, pão de forma, pão de fermentação natural. Só que resolvi tirar da equação uma coisa: o forno. Não estou inventando nada, a humanidade começou a assar pão em chapas, placas de pedra ou até mesmo sobre areia aquecida por uma fogueira. Claro que não fica um pão com a crosta uniforme. Mas não ficou ruim como um lanche rápido. A massa também não vai muita coisa, não, basicamente é uma massa de pizza. E o recheio pode ser qualquer coisa que gostar. No caso, queijo e presunto. Só não exagere na quantidade e evite coisas que soltem muita água, pode deixar o pão com uma textura “encruada” por dentro.

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Para a massa:

2 xícaras de farinha de trigo

1 colher de chá de fermento biológico seco instantâneo

1 colher de chá de açúcar

Sal à gosto

Água

1/4 de xícara de chá de azeite ou óleo

Misture a farinha, o açúcar, o sal e o fermento. Vá adicionando a água aos poucos, misturando até formar uma massa bem macia, um pouco pegajosa. Regue com o azeite e sove por uns 5 minutos, até ficar um pouco mais lisa, homogênea. Cubra com um filme plástico e deixe descansar até dobrar de volume.

Abaixe a massa com o punho fechado e divida em 8 porções. Abra cada porção (talvez precise de um pouco de farinha para não grudar na mão) e recheie, fechado bem a emenda. Achate um pouco cada pãozinho, porque cozinha melhor achado que redondo.

Não precisa fermentar novamente. Acomode em uma frigideira levemente untada os pães (fiz 4 de cada vez) aquecida, mas não fumegando. Usei uma frigideira de fundo grosso, poderia ser uma chapa de ferro. Assei em fogo baixo até dourar bem de um lado e virei, para dourar de outro.

Da próxima vez irei fazer sem recheio mesmo. Ou misturar alguma erva seca à massa.

 

 

 

 

 

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Pão de Fermento de Uva Passa

IMG_5003 Ontem recebi algumas pessoas aqui em casa para explicar como faço defumados. Preparei um pão bem simples, de fermentação natural. O pão ficou bonito, com bolhas grandes, textura boa. O curioso é que esse fermento não é ácido. Na verdade esse fermento é um caso de amor e de ódio. Há vários anos tentei fazer um pão com fermento de uva passa. Não deu certo. O bom é que a gente vai ficando mais paciente, aprende algumas coisas e, principalmente, aprende a parar, dar um passo para trás e olhar o quadro com uma certa distância. IMG_4972 Tudo começa com passase água. O melhor seria usar passas de uvas orgânicas. Usei as que tinha em casa. Água sem cloro, sempre. Não tirei medidas. Simplesmente coloquei um punhado de passas em um vidro até atingir cerca de 1/4 da altura do pote e juntei água até quase enchê-lo. Tampei e fiquei abrindo umas duas vezes por dia e sacudindo duas vezes por dia. Com o tempo – que pode variar de uns 4 dias a uma semana – surgiram bolhas de gás. Deixei que fermentasse até que as bolhas fossem intensas e o aroma fosse algo que lembrasse álcool. Provei, ainda restou alguma doçura. IMG_4999 Peguei cerca de 100 ml desse líquido fermentado e guardei o resto na geladeira. Juntei 100 gramas de farinha, uma pitada de sal e misturei. Deixei fermentado. Essa primeira fermentação, nesse inverno quente, levou 12 horas. A massa se encheu de bolhas. IMG_5002 Adicionei mais 100 ml de água e mais 100 gramas de farinha, outra pitada de sal e duas pitadas de açúcar. Deixe fermentar novamente. Essa segunda fermentação levou cerca de 8 horas. IMG_5000 A fermentação estava bem vigorosa. As bolhas que se formaram na superfície eram grandes. O aroma não era ácido, era mais para alcoólico e frutado e o sabor da massa, apesar do pouco açúcar, era adocicado. Para o pão peguei esses 400 gramas de fermento, juntei 600 gramas de farinha (usei farinha de trigo especial para pizza, vende nos atacadistas em pacotes de 5 kg; curiosamente, funcionou bem), 1 colher de sopa de açúcar, cerca de 1 colher de sopa de sal e fui adicionando água aos poucos. Coloquei a massa em uma superfície untada com azeite e sovei. A massa foi ganhando elasticidade. Gastei uns 10 minutos nesse trabalho. Adicionei mais umas gotinhas de água e de azeite para que a massa ficasse macia e não borrachenta. Coloquei em uma tigela untada com azeite, cobri com filme plástico e deixei descansar a noite toda (ou pelo menos 6 horas). Dividi em duas porções, modelei duas bolas e deixei que crescessem. Fiz cortes em forma de cruz no topo de levei ao forno quente até dourar. Abaixei um pouco para que a crosta ficasse bem assada e firme. O único detalhe é que a massa não é ácida. Se eu tivesse assado dentro de uma panela de ferro com tampa ou, pelo menos pulverizado um pouco de água sobre ele, teria feito uma crosta mais crocante e bonita. Esqueci.

 

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Pão Sem Sovar E Sem Panela Especial

Já falei sobre o pão sem sovar, muita gente, aliás, já escreveu sobre essa técnica de fazer um pão sem usar uma batedeira, máquina de pão ou muque. Volto a escrever sobre ele por causa da Vanêssa, que queria fazer o pão mas se deu conta que não tem uma panela de ferro ou barro com tampa. Resolvi o problema com um refratário. Aquele mesmo, que quase todo mundo tem no armário, geralmente usado para fazer aquela lazanha ou pavê. Quanto mais altas as paredes, melhor. As dicas vão aqui abaixo. Só digo que o pão ficou bom e, para minha alegria, enquanto esfriava sobre uma grade, o pão começou a estalar, um som bem animador da côdea trincando.

4 xícaras de farinha de trigo

2 colheres de chá de sal

1/2 colher de chá de fermento biológico seco (sim, é só isso mesmo).

Cerca de 2 xícaras de água ou mais

Misture a farinha com o sal e o fermento. Vá adicionando água, até formar uma massa pegajosa. Não é preciso sovar, só tenha certeza que a massa está bem misturada e que não há porções de farinha seca. Junte toda a massa no centro da tigela, tentando formar uma bola e cubra com filme plástico. Deixe descansando por 8 horas ou mais. Eu fiz à noite e modelei o pão pela manhã. No dia seguinte vire a massa sobre uma tábua enfarinhada. Achate e dobre em três. Faça isso umas 3  ou 4 vezes. A massa, a princípio muito mole, vai ganhar um pouco mais de consistência. Modele o pão e coloque em um refratário untado e enfarinhado. Como o meu refratário era oval, fiz um pão oval. Deixe crescer bem. Eu sou um pouco impaciente, não é raro eu errar por não deixar o pão fermentar o suficiente. Hoje segurei a vontade de colocar o pão no forno antes do tempo e aguentei firme mais meia hora. O pão parecia que ia explodir de tão fermentado. Fiz cortes. Cobri com 2 folhas de papel alumínio e fechei bem as bordas para que escapasse pouco vapor. Levei ao forno pré-aquecido, temperatura quente mas não no máximo. Não sei a temperatura exata porque meu termômetro quebrou. Coloquei o refratário sobre uma assadeira de alumínio, não o coloquei diretamente sobre a grade. Deixei o papel alumínio sobre o pão por cerca de 20 minutos ou até o pão crescer bem e a parte externa estar meio cozida, um pouco pegajosa. Retirei o papel alumínio e deixei dourar. Retire do refratário e deixe esfriar sobre uma grade (para evitar que forme umidade na parte de baixo do pão e deixa-lo molenga). E com um pouco de sorte, é possível que possa ouvir a crosta dourada estalar e trincar. Últimos detalhes: Deixei o pão fermentando toda a noite, fora da geladeira. Pode ser que o pão fique com um sabor um pouco ácido se fermentar por mais tempo. Isso não significa que a massa está estragada. Se preferir, pode fermentar o pão por 2 horas e guardar na geladeira em um pote bem fechado por um dia ou dois. Retire da geladeira, deixe chegar à temperatura ambiente e modele. O pão fica com uma crosta bem crocante nas primeiras horas. O miolo é mais firme que o do pãozinho comum mas é elástico, por isso é importante que a massa esteja pegajosa no início da fermentação. Quanto menos hidratada, mais duro será o pão.

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Pão da Semana: Pão com Fermento de Uva

Cheguei à uma conclusão à respeito de pães com fermentação natural: até agora não consegui um pão feito com fermento ácido que me agradasse por completo. Sempre voltava minha lembrança aos pães que comprava em pequenas padarias japonesas. Os pães eram firmes mas com miolo macio. O aroma era mais delicado e o sabor, adocicado. Cheguei à conclusão que prefiro os fermentos alcoólicos, parentes do fermento biológico comum. Existem pães feitos com borra de sake mas preferi partir de algo mais acessível: uvas. Melhor ainda: uvas não muito doces.

Para cada 100 gramas de uvas, usei 100 ml de água e uma colher de chá de açúcar. Comprei uvas e elas não estavam muito doces, funcionaram bem. Poderia ser uva passa, creio eu. O importante é usar água que não contenha clore, ou seja, água mineral. Coloque em um pote e cubra a boca com um pano (para as moscas não pousarem) e deixe. No primeiro dia não vai acontecer coisa alguma, no segundo em diante vai dar para perceber uma ligeira fermentação.

Mesmo com o calor que anda fazendo, levou 4 dias para ter uma fermentação vigorosa. As uvas racharam, é assim mesmo. Coe e reserve o caldo. Descarte as uvas.

Para um pão médio, use 100 ml de líquido misturado a 100 gramas de farinha e mais uma colher de chá de açúcar. Misture e coloque em um pote.

Levou mais de 4 horas para a mistura mais que dobrar de tamanho, em um dia quente. No inverno deverá levar mais tempo.

Forma uma esponja bem aerada, cheia de bolhas.

Fiz um pão simples, assado em uma forma “de pão de forma”. Acrescentei à esponja mais 450 gramas de farinha de trigo, 30 gramas de açúcar, 8 gramas de sal, 30 gramas de manteiga e água o suficiente para formar uma massa macia. Sovei bem e coloquei na forma untada. Deixei crescer. Levou cerca de cinco horas (já era noite e a temperatura estava bem mais amena). Eu deveria ter deixado crescer ainda mais um pouco, apesar de ter crescido bem mais que o dobro. Levei para assar em forno pré-aquecido bem quente nos primeiros 10 minutos e depois abaixei a temperatura.

Como ficou ? Ficou mais pesado que um pão feito com fermento biológico, o que era esperado. As bolhas ficaram bem pequenas e o sabor, adocicado. O aroma também não era nem de fermento biológico, nem ácido. A parte de baixo ficou com uma crosta mais dura, o miolo ficou macio, virou um bom pão para sanduíche.

O resto do fermento deixei na geladeira, vou ver quanto tempo sobrevive, eventualmente irei alimentando com umas pitadas de açúcar.

 

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Velha Panificadora e Velha Técnica Para Assar Pão

Tudo começou com a vinda de amigos aqui em casa. A velha panificadora estava encostada por conta de um problema na cuba. Comprar outra cuba implicaria em encomendar no Japão, pagar pelo frete, mais impostos. Ou seja, juntando tudo, ficaria quase o preço de uma máquina nova. O Luiz Carlos resolveu meu problema. Voltou a funcionar que é uma beleza. A princípio, pensei em fazer uma massa só com farinha e água, para ver se funcionava mesmo. Acabei juntando fermento, sal, um pouco de açúcar e azeite, tudo ” a olho”, mesmo.

No domingo ganhei uma linda panela de ferro, daquelas grandes, pesadas mesmo. Há muito andava pensando em assar um pão em uma panela dessas. Há uns tempos os japoneses exploram essa possibilidade. Não é incomum assarem pão em panelas de ferro, mas em acampamento, ao ar livre. Com a crise energética por lá, andam procurando opções de cozinhar ou assar gastando menos energia elétrica (a grande maioria dos fornos por lá é elétrico). Ou seja, uma técnica velha saiu do campo e foi para dentro da casa.

Tentei assar o pão dentro da panela de ferro. Pré aqueci tanto a panela quanto a tampa na boca do fogão. Tentei manter a temperatura da tampa com uns pedaços de carvão. Não funcionou bem, o carvão não estava em brasa forte.

Fui obrigada a virar o pão e dourar a parte de cima. O pão achatou um pouco. Entre a assadeira e o fundo da panela coloquei bolotas de papel alumínio, para que não tocasse o fundo e não queimasse.

Infelizmente, queimou no fundo. Errei na temperatura da chama, deveria ter usado uma chama bem baixa.

Mesmo assim, não considero um fracasso. A massa ficou fofa mas consistente. Tenho dificuldade em traduzir a expressão “mochiri”. É aquela textura consistente, um pouco pegajosa da tapioca, por exemplo. Seria o oposto de farelento. Ficou muito bom.

A pergunta é: Vale a pena? Acho que vale, sim, se você tiver espírito um pouco aventureiro. É provável que vá queimar uns pães até aprender a lidar com a temperatura da chama, o pré-aquecimento, etc. Nem me perguntem qual é a temperatura, quanto tempo preaquece. Isso vai variar de panela para panela, se é mais alta, mais baixa, com paredes mais ou menos grossas. Mas pode ser que consiga assar um pão, gastando menos gás e sem transformar sua cozinha em uma sauna.

 

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Pão da Semana: Kurimu Pan (Pão com Creme) Revisado

Há muito tempo publiquei uma receita de “Kurimu Pan”. Hoje resolvi fazê-los para atender a uma vontade de grávida. Não creio que a criança irá nascer com cara de pão, mas não me custava dar um pequeno agrado à moça, que morou um tempo no Japão e é filha de um casal que mora aqui perto.

Esse pãozinho é muito comum nas lojas de conveniências, supermercados, padarias. De uma maneira geral, é algo meio “trash” como nosso sonho. Por isso concordo com o uso do creme de confeiteiro industrializado. Caso prefira, substitua por um mingau feito com amido de milho, açúcar, leite e, no final, baunilha e umas gemas desmanchadas para dar uma pouco de cor. Misture um pouco do mingau quente nas gemas e só então coloque tudo na panela, senão as gemas talham.

1 colher de chá de fermento biológico seco instantâneo

100 gramas de farinha de trigo

Água o quanto baste

Misture o fermento com a farinha e adicione água até formar um mingau grosso. Deixe fermentando por cerca de 1 hora. Adicione a:

250 gramas de farinha de trigo

30 gramas de açúcar

5 gramas de fermento biológico seco instantâneo

1 ovo

45 gramas de manteiga com sal

1 colher de chá de lecitina de soja (usei em pasta; se não encontrar, não use, mas ajuda a melhorar a textura do pão e deixa-lo mais macio)

Água o quanto baste

Misture tudo, sendo a água por último. Sove ou use o gancho para massas pesadas da batedeira ou uma máquina de fazer pão. A massa deverá ser bem macia, elástica, um pouco pegajosa. Pegando um pouco de massa com a mão ela estica sem se romper com facilidade.

Cubra e deixe crescer, até dobrar de volume.

Use cerca de 400 gramas de creme de confeiteiro (que pode ser feito com mistura industrializada ou feita como expliquei acima). O creme deverá estar frio, mas não gelado.

Divida a massa em porções de 50 gramas, mais ou menos. Faça uma bolinha com cada porção e deixe descansar por 10 minutos. Abra cada pedaço e recheie com um pouco de creme. Feche bem, dê um formato ovalado e coloque na assadeira forrada com papel impermeável ou untada, com a emenda para baixo. Deixe crescer por cerca de 15 minutos. Enquanto isso, aqueça o forno, que deverá estar bem quente.

Pincele com uma gema e, com uma tesoura, faça cortes na massa para escapar o vapor. Se não fizer esses cortes, o pão vai ficar oco por dentro e poderá murchar depois de frio.

Asse em forno bem quente até dourar.

Renderam 16 pães.

 

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