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Blog Delicia by Marisa Ono
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Pressa, Preguiça, Falta de Bom-Senso e Desinformação

 

A internet transformou a informação em algo instantâneo. Uma notícia é compartilhada praticamente à velocidade da luz. Há um lado bom, claro. Mas há um lado muito danoso. E nem é culpa da internet, é do usuário e, eventualmente, de quem gera a informação.

Tenho recebido via e-mail e pelo Facebook notícias falsas. Não é de hoje que isso acontece, é verdade, apenas o volume aumentou muito nos últimos meses. Em alguns casos, são coisas que saem de um site de humor, por exemplo e que acabam perdendo o contexto. Alguém lá atrás não entendeu a piada e repassa como sendo uma notícia “de verdade”.

Em outras, são notícias falsas criadas sei lá com que intenções. Nessa categoria entram as notícias de crianças desaparecidas que nunca desapareceram, do baton que contém chumbo mas que exibe uma foto de uma paciente com herpes. E até a velha falsa denúncia de que Fanta Uva provocaria câncer voltou a circular, uma coisa tão velha!  A notícia falsa morreria em pouco tempo se as pessoas parassem para conferir as fontes. Mas não, citam uma médica ou um pesquisador que nem da área em questão é, mas como tem um nome, acham que é verdadeira.

E não é raro eu ver notícias geradas por jornais ou programas de tv que, na verdade, carecem de uma pesquisa e de uma boa dose de bom-senso. Principalmente no caso do jornalismo científico. Parece que não existem muitos jornalistas que possuem um mínimo de afinidade com Ciências em geral. Mesmo assim, a regra existe e é clara: confirme as fontes.

Nesta semana uma notícia publicada em um portal pipocou no Facebook. O título era: “Salmão de cativeiro não contém ômega 3, dizem especialistas”. Em instantes surgiram centenas de pessoas dizendo “Ah, eu bem que desconfiava” e “Eu estou falando disso há anos”. Indignação geral. Fui ler o texto e deparei com um bom punhado de erros, tanto por parte da repórter quando da entrevistada.

O principal ponto que difere o salmão natural do criado em cativeiro é a presença de ômega 3. “O salmão selvagem é essencialmente carnívoro e se alimenta, entre outras coisas, de algas oceânicas e fitoplâncton, fontes de ômega 3. Em contrapartida, o mesmo pescado produzido em cativeiro é alimentado com ração, que não possui esse ácido graxo”, diz Vivian Suen, médica nutróloga e diretora da Abran.”

O salmão converte e armazena o ômega 3 que ingere, contudo não tem capacidade de sintetizá-lo. “Por isso, apenas o salmão pescado em seu ambiente natural possui ômega 3″, ressalta Suen.

Primeiro que se é um carnívoro, não vai se alimentar de algas. Um salmão se alimenta de outros animais, que se alimentam de algas, fitoplâncton ou de outros animais ainda menores.

Depois, ser alimentado com ração não significa que não contenha ômega 3 ou qualquer outro item. Rações partem de fórmulas, nas quais podem ser incluídos diversos nutrientes. E, no caso do salmão, é feita com peixe, fonte de ômega 3, entre outras coisas.

Por fim, basta pesquisar na internet e ler inglês. Existem várias pesquisas afirmando que o salmão de cativeiro contém, sim, ômega 3. Em alguns casos, até mais que o selvagem.

http://www.ars.usda.gov/is/ar/archive/may13/salmon0513.htm

A combinação fato+hipótese=declaração bombástica pode funcionar em revista de fofoca. Em se tratando de Ciência, não é aceitável. Fiquei surpresa em constatar que a diretora da Abran não se deu ao trabalho de fazer uma pesquisa básica, consultar uma fonte confiável como uma publicação científica, uma Universidade ou instituição.

Outro erro que percebi se refere aos corantes presentes na ração que alimenta o salmão de cativeiro:

Em 2004, a revista Science publicou uma pesquisa coordenada pela State University de Nova York, em Albany (EUA), que afirmava que o salmão de cativeiro era um inimigo da saúde porque esses pigmentos eram substâncias cancerígenas. Segundo o relatório produzido por cientistas norte-americanos e canadenses, duas toneladas métricas de carne de salmão em estado selvagem e criado em cativeiro foram analisadas para chegar a essa conclusão.
Não cita o autor ou autores da pesquisa, mas na página da Universidade de Albany, comenta sobre os poluentes potencialmente cancerígenos encontrados em amostras de salmão. São quatro contaminantes, dois deles são resíduos industriais e dois são agrotóxicos. Nada de corantes.

http://www.albany.edu/ihe/salmonstudy/pressrelease.html

No entanto, no próprio texto, mais abaixo, admite que a pesquisa não toca no quesito corante. Ou seja, afirmam e desmentem logo em seguida.

Acho curioso o pessoal se preocupar tanto com a astaxantina no salmão mas consome como um suplemento, já que é um antioxidante. Não, apesar de muita gente consumir cápsulas dele, não há ainda dados suficientes para dizer que cura isso ou aquilo.

O fato é que consumir peixe demais – como tudo, aliás – pode fazer mal à saúde. Peixes também podem estar contaminados com dejetos industriais, agrotóxicos, metais pesados oriundos de mineradoras. Depende muito de onde são pescados, do que se alimentam. Tenham eles ômega 3 ou não. Além do mais, a pesca comercial está esgotando os recursos do planeta. Na intenção de obter espécies mais lucrativas, acabam retirando do mar quilos e quilos extras de peixes sem interesse que acabam sendo descartados. Uma pequena porção vai virar ração. Também é preciso lembrar que não somos os únicos animais que se alimentam de peixe no planeta. Além dos Posso até não gostar de peixe cultivado, mas o fato é que em um futuro nada distante será o que teremos para comer. Se continuarmos com esse consumo, não teremos outra opção.

http://www.medicalnewstoday.com/releases/35370.php

Dias depois essa matéria foi alterada, trocaram o título, retiraram a afirmação bombástica e escreveram outro texto como errata, desta vez afirmando o contrário, o salmão de cativeiro contém ômega 3, o corante não faz mal algum, o salmão selvagem é caro, raro e ecologicamente incorreto. As diferenças entre um e outro se resumiram no preço. Caso curioso em que a errata é bem maior que o texto original.

Nessa onda, veio até a mim uma nota afirmando que já estariam comercializando salmão criado sem corante, uma nova tendência nos EUA, um salmão “albino”. Mas na foto, o que é apontado como salmão albino é, na verdade, “Chilean Seabass”, ou seja, robalo chileno… Agradecimentos ao Antonio Candia que encontrou a foto em tamanho maior.

E agora, onde estão todos aqueles que saíram por aí repetindo essas notícias? Onde estão todos que disseram “Eu não te disse?” Estão por aí e continuam repassando falsas notícias. Infelizmente, falta bom-senso. Não dói duvidar. Dá um pouco de trabalho pesquisar mas é sempre melhor do que espalhar mentiras.

Existem alguns sites que recolhem e analisam farsas e falsas notícias que rodam pela internet, vale a pena conferir:

http://www.e-farsas.com/

http://www.quatrocantos.com/lendas/index.htm

PS: Fiquem atentos a blogs, também. Sei que estou dando um tiro no meu próprio pé, falando mal do mesmo veículo que uso. No entanto, tem muita gente escrevendo sobre tudo sem, no entanto, ter nenhuma experiência sobre determinados assuntos e sem a preocupação ética que a imprensa (ou pelo menos parte dela) tem. Vejo muitos absurdos, sobretudo ligado à saúde e alimentação.

 

 

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15 comments to Pressa, Preguiça, Falta de Bom-Senso e Desinformação

  • Marisa, é muito importante mesmo esta crítica às notícias instantâneas. A denominação “albina” deva ser removida, uma vez que essa é uma característica genética e na época usei a denominação para ser mais didática, mas é um termo incorreto. Contudo, como autora da foto e do post destaco que não houve má fé e realmente na ocasião fui tomada por tanto entusiasmo para mostrar às pessoas que a culpa é dos consumidores pela demanda de produtos coloridos artificialmente que não prestei atenção ao “detalhe” informado nas placas. O post será editado. obrigada.

  • Rafael

    Olá, Marisa!
    Este tipo de matéria é feita para desacreditar determinado peixe.
    Como grande parte do salmão criado em cativeiro vem do Chile e faz uma grande concorrência com o salmão selvagem pescado em outras partes do mundo, criam estas falácias.

    Já fizeram isto com vários outros peixes, como o Panga (Pterogymnus laniarius, conhecido popularmente como catfish – peixe-gato), peixe largamente criado nos países asiáticos (o maior produtor é o Vietnã) e largamente consumido em todo mundo (é o 5º fruto do mar mais consumido nos EUA e 3º na Europa).
    O problema é que o tal Panga começou a fazer concorrência com outros peixes pescados localmente. Aqui no Brasil, virou uma alternativa ao alto custo da pescada.
    Infelizmente, mesmo com 8,5 mil quilômetros de costa, além de uma infinidade de rios e lagos, que correspondem a 13,7% da água doce do mundo, ainda pagamos muito caro pelo peixe por aqui. :(
    Tanto que 60% do peixe que consumimos no Brasil é de origem importada (o salmão, do Chile; a polaca, pescada no Oceano Pacífico e processada na China; o peixe-panga, do Sudeste Asiático; e o bacalhau, pescado no Atlântico Norte).

    Infelizmente, as pessoas não de dão ao trabalho de fazer uma simples pesquisa no Google e verificar se este tipo de notícia é verdadeira ou não.

  • Marisa Ono

    Bem, Rafael, não posso afirmar que a notícia surgiu para beneficiar o salmão selvagem, embora eu tenha achado curioso que ela tenha surgido justo quando estamos às vésperas de receber salmão do Alaska.

    Pelo que ouvi – de peixeiros e do Thomas Troisgros – existem alguns fatores que encarecem o pescado brasileiro. Um deles é a exportação. Pargos, anchovas e outros tantos peixes estão sendo exportados. Um exemplo é a ova da tainha sumiu das peixarias, o mercado internacional paga bem. Outro fator é a falta de estrutura de muitos pescadores. Thomas disse que muitos não dispõem de câmaras frigoríficas, o peixe chega em péssimas condições e acaba sendo jogado fora. E o próprio consumidor tem sua parcela de culpa. Como o camarão, por exemplo, atinge bom preço e sempre há procura, usam-se redes com malhas pequenas que acabam tirando do mar muitas outras espécies que não têm valor comercial. Se houvesse consumidor para esses peixes, provavelmente seriam comercializados por um preço baixo.

    O fato é que escrevi esse post com o intuito de alertar quanto à falta de critério de quem publica na internet, que vão desde blogs a mensagens compartilhadas via e-mail e redes sociais. Eu gostaria que as pessoas praticassem um pouco a dúvida e o bom-senso.

  • Marisa Ono

    Juliane, desculpe-me a sinceridade, mas a informação da placa não é um “detalhe”.

  • Romanie

    Marisa, como falávamos esse dias ne?
    So duas palavras pra você:
    Te amo!

  • Diulza Angelica dos Santos

    Marisa, antigamente comíamos por que era saboroso, até coisas que não era muito saborosa mais matava a fome, hoje tudo tem que ter um por que.. para ser alimento, eu nem como mais salmão pois esta em extinção e nem é la estas coisas para mim claro. melhor começar a consumir peixe nacional,que pelo menos eu estou acostumada, pois sempre nas ferias ia para o Araguaia e trazíamos muitos pescados já salgados e secos.de vez em quando como um bacalhau, porque quando pequena ganhávamos de uma tia que tinha condições e era generosa conosco mandava nas caixas para nós. do mais gosto da forma que voçê faz seus alertas e até autocritica és honesta por isto és respeitada bjs.

  • Diulza Angelica dos Santos

    Desculpe olhando melhor as fotos tenho a certeza que ja vi este peixe descrito em bancas de supermercado como bacalhau desalcado se der te mando uma foto quando encontra lo de novo. bjs. fui

  • Gilda

    Nossa! Eu estava para tirar isto a limpo há nem sei quanto tempo! Deu um trabalhão, estou vendo! Muito obrigada por sua informação, pelos comentários tão lúcidos e pelo tempo que você gastou com este assunto. Está tão complicado decidir o que comer hoje em dia! É um alívio receber uma ajuda assim.

  • Marisa Ono

    Eu ainda fico impressionada com a quantidade de absurdos que são publicados na internet. E nem sempre são corrigidos, apresentam errata e pedido de desculpas, Gilda. O trabalho dos sites e-farsas e o quatro cantos é bom, vale a pena conferir.

  • Marisa Ono

    Não, Diulza, é peixe fresco.

  • Paulo Roberto Oliveira

    A internet é uma faca de dois gumes. Quem nos garante tambem, que a noticia é verdadeira que o salmão criado em cativeiro tem ômega 3 realmente?
    Quem nos garante que esta noticia que desmente que o salmão de cativeirotambem não tem ômega 3 , não foi induzida pelos criadores do mesmo, para não terem suas vendas prejudicadas? Voces esquecem que o Brasil não é um país honesto nossos governantes não são sérios, e acima da verdade, do bem comum, estão interesses privados de grandes grupos ecômicos, que visam o lucro.

  • Marisa Ono

    Paulo Roberto, pelo visto você não leu o texto na íntegra. Nele comento que é preciso conferir fontes, aconselho a pesquisar artigos publicados por institutos de pesquisa, como universidades, hospitais, etc. Obviamente, nem todos os trabalhos de pesquisa são bem conduzidos. Daí a necessidade de conferir se os dados da pesquisa X são consistentes com pesquisa Y. E lamento informar que o Brasil não é o único país corrupto do mundo. Existem muitos erros cometidos pelos meios de comunicação. Um site bom para conferir isso (em inglês) é o Bad Science: http://www.badscience.net/

  • Carlos Salgado

    Oi Ma!!!
    Importante post! Desmistifica o salmão de cativeiro esclarecendo a cadeia do omega 3 e colocando alguns pingos nos “is” na exploração comercial de pescados. Surpreendo-me é que mesmo o texto analisando e condenando “resultados intuitivos de pesquisas” publicadas de forma sensacionalista, ainda assim vemos mais deduções mirabolantes em cima das teorias conspiratórias, culpando agora o Brasil, que por não ser um pais honesto deduz-se lógicamente que o salmão também não é honesto!!

  • Marisa Ono

    Ô, Carlos, que prazer lê-lo por aqui! Infelizmente as pessoas andam se apegando muito a notícias divulgadas no FB, sem o menor critério. E apegam-se mais ainda ao tal do “apontam estudos” quando isso só significa que é preciso investigar melhor determinado assunto, propriedade, característica ou seja o que for. Por enquanto – até aparecer algum fato novo – o peixe cultivado parece ser uma boa opção para diminuir a pressão de diversas espécies. Ah, e as pessoas esquecem que não somos só nós que consumimos salmão no planeta. Ursos e outros animais também…

  • […] fonte confiável, que há alguns anos era espalhada por e-mail e hoje é espalhada pelo Facebook. Nesse link, Marisa Ono desmente esse boato e fala sobre a nossa credulidade, resultado da preguiça em […]

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