Vocês já viram um anjo?
Nos primeiros anos da minha vida, estudei em uma escola religiosa. Falava-se muito em anjos da guarda, que nos protegiam dos perigos e nos salvavam de apuros. Já naquela época eu era um bocado cética. Acreditar em algo que não se pode ver era pedir demais para mim. Um dia perguntei a meu pai se existiam anjos.
Meu pai era um mecânico. Trabalhava em uma transportadora, fazendo de quase tudo nos caminhões. Não sei se vocês sabem como é uma transportadora. Nas oficinas, o trabalho é pesado e sujo. Nos caminhões, motoristas e ajudantes dispostos a enfrentar tudo: estradas ruins, assaltantes, o cansaço das longas jornadas. Pode-se dizer que era um ambiente bruto. Não era raro meu pai correr para apartar brigas. Brigas feias, um munido com uma barra de ferro, outro com uma peixeira, por exemplo. Meu pai era muito bom em resolver problemas. Ou, ao menos, remediar.
Então ele me disse que anjos existem, sim. E que são visíveis. Não são seres de asas, auréola e roupa branca, não. Não são sempre loiros, de olhos azuis. Mas eles estão por aí, o tempo todo. E nos ajudam e até nos salvam nos momentos mais difíceis. Pode ser seu vizinho, mas pode ser um desconhecido. Pode ser qualquer um. Um anjo é gente de verdade. Demorou para que eu entender.
Um dia, lá pelos meus vinte anos, estava a caminho do trabalho quando a vela da minha moto escapou. Não tenho idéia como se soltou, mas o fato é que lá estava eu colada ao meio-fio, em uma avenida movimentada, sem ferramenta para o conserto. Não sei de onde apareceu um senhor de bicicleta, com um caixote de madeira na garupa. De lá tirou um alicate e colocou a vela, que estava pelando de quente, no lugar. Não aceitou dinheiro, nada. Aliás, nada falou. Sorriu e foi embora. Foi o primeiro anjo que vi. Vi alguns anjos depois disso. E talvez eu tenha sido o anjo de alguém.
O que eu quero dizer é que sou feliz por ter tido alguns anjos na minha vida. E, creiam, há muita gente de boa-vontade, gente generosa, gentil, mesmo que a tv nos despeje toneladas de brutalidade. Mesmo que nos digam o contrário. Mesmo quando estamos sem esperança. Há muita gente disposta a ajudar, mas é preciso aceitar que, como todo ser humanos, somos vulneráveis, somos frágeis e nem sempre damos conta de tudo sozinhos. Gostaria que pudessem ver essa coisa maravilhosa que é ver o melhor do que ser humano é capaz. Não só no Natal, onde vemos anjos por todos os lados, mas no resto do ano.
Feliz Natal a todos.
















